Dia_1_parte1

 Dia 1. Ser o primeiro dia não significa nada. É apenas a tentativa de não precisar ter criatividade para escrever um título. Muitas vezes me perdia tentando encontrar a palavra perfeita, que sintetizasse tudo o que gostaria de escrever em determinado texto, mas a verdade é que não sei o que gostaria de escrever. Então o lógico seria escrever o título ao final, mas ainda assim perdia tempo pensando nisso e aquilo. Pensei em chamar de conversa_*algum número*, mas o nome parecia extenso, propenso a esquecer alguma letra. Sinto muito pelas letras que faltarem aqui. Palavras, não se sintam menos importante por não constar em sua extensão tudo o que lhes forma, o que lhes caracteriza. Além disso, as letras podem estar fora de ordem, ou ainda, um pouco mais grave, podem faltar algumas palavras. E isso vai demonstrar a dificuldade de acompanhar em palavras a velocidade do pensamento, ou de como ele muda, ou ainda, cruza com vários outros pensamentos. Enfim, o tdah.

Estou aqui escrevendo apenas sobre o título, então me ocorre: sou realmente prolixa. Devo irritar muita gente com isso. 

Será que algum dia voltarei a ler isto? Provavelmente não. Não costumo ler o que escreve nem no presente.

Iniciei a lenga lenga toda, para falar de outra coisa. Liguei a televisão e passava notícias sobre violência. Um clássico do jornalismo brasileiro. A primeira história que acompanhei ao ligar a televisão, mostrava um casal de idosos que moravam sozinhos e, de certa forma a matéria responsabilizava o único filho de 45 anos de não prestar o auxilio que a moral do jornalismo buscava retratar na matéria. Quem cuidava dos idosos era uma moça de fora da família, e que não recebia nada em troca. Ela fazia isso por pura vontade, por simpatizar com o casal, como ela mesma revelou. Em seguida, mostraram casos de violência no transito e também, os casos de violência infantil.

Nos relatos da violência infantil relataram que os atos violentos deixam marcas para a vida toda, muitas vezes na forma de traumas. Enfatizaram muito este ponto. E aí me ocorreu o link com o desconforto relacionado com o relato da primeira história que vi, a dos idosos. 

Vamos lá. O quanto superficial a história do casal de idosos foi relatada. Na reportagem o filho abandonou, e isso causa um horror a qualquer um que assiste. E me pergunto, o quanto justo com o filho é este ato jornalístico? Será que este filho não foi como uma destas crianças que a própria reportagem citou posteriormente? Será que não há uma história de violência? Pq digo isso? Pq a história do casal de idosos me pareceu tão familiar a história dos meus próprios pais: um cara alcoólatra, violento, bate na esposa, uma mulher com fala agressiva quando se trata do marido, um cara que fala doce (quase se inocentando de tudo). Fico indignada com a reportagem? Não. Fico é indignada com a sociedade hipócrita, que cobra sentimentos, que cobra amor como resposta das violências.

Aposto que a conclusão dos relatos das violências sofridas pelas crianças na mesma matéria não viriam com a sugestão de superar tudo amando incondicionalmente os seus agressores. Talvez as pessoas deveriam cobrar menos amor, e deveriam buscar é maior responsabilização pelos atos de quem comete crimes, de quem agride, espanca, maltrata e humilha vulneráveis. Pois não há agressão maior do que impor que agredido ame o seu agressor. Entendo também, que nem todos os atos foram de agressão, que no meio de um monte de tragédia podem ter havido bons momentos. Mas será que o agredido, dentro da esfera de vítima, consegue desenvolver um amor saudável, consegue perceber momentos felizes, como aqueles que nunca foram agredidos? Impossível afirmar isso, senão hoje com quase 30 anos nãos precisaria fazer terapia para conseguir amar sem medo.

Busco na minha memória a lembrança mais antiga de agressões físicas, mas hoje é difícil voltar ao passado com tanta precisão. Tenho muitas lembranças de agressão, mas elas não são associadas a datas, e sim a sentimentos e lugares. Lembro que aos quatro anos entrei na escola, eu ficava na casa da minha avó de manhã e a tarde atravessava a rua até a escola, retornava para a casa da vó e meu pai me buscava lá. Lembro que o pai perguntava como me comportei, e caso a vó contasse algo que para ela não foi um bom comportamento, daí haveria uma surra ao chegar em casa. Deste fato, não consigo lembrar um período em que foi instaurado, lembro do sentimento de medo. Considerando que eu só fui na aula no período da tarde quando fiz o jardim e o pré, e que tenho fotos destas época me vestindo para ir a aula. o sentimento já existia desde então, e a prática provavelmente tbm. As surras aconteciam com chinelos, cintos e a varinha. A temida varinha. Ela tinha até uma posição própria entre a ordem de todos os poucos objetos que compunham nosso lar. Ela ficava atrás da porta da sala. Quando nós mudamos do porão 1 para o porão 2, a varinha teve sua posição espelhada para atrás da porta do porão 2 (espelhada pq os dois porões eram espacialmente iguais, um do lado do outro).

Pq estou conversando comigo mesma sobre isso? Não é apenas pq vi na televisão algo sobre, mas pq na última terapia abordamos este assunto, e o mesmo já ficou tanto tempo sendo escondido em algum lugar dentro de mim, que hoje ele não tem mais espaço a partir do momento que resolvi remover as cortinas, e esvaziar as gavetas do meu interior. Então acabo de perceber, que alguma forma de lembrança e de sentimento a partir de agressões, me preenchem por pelo menos 26 anos, considerando minha idade atual. Esta resposta não terei, mas se aos 4 anos eu já apanhava com varinha e todos os outros acessórios, com qual idade e por qual motivo meus pais iniciaram tal prática? Eu mesma, não me vejo com coragem de bater em qualquer criança de qualquer idade. Qual é o sentimento de quem bate? Qual o sentimento e pensamento que ocorre em alguém que deseja ferir uma criança de 4 anos? 3 anos? 2 anos? um bebê? O quanto meus pais foram agredidos? Quais foram as agressões pelas quais passaram para agir com naturalidade diante das agressões? 


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